
Queria fazer um blog só com textos escritos por mim.Mas as palavras às vezes me faltam,as idéias se tornam nebulosas.A poesia não a encontro e a beleza do escrever bem não a tenho.
Encontrei este texto que fala sobre o desaparecimento das bibliotecas, intitulado "Pacto com a solidão".Achei-o de uma beleza singular e de uma verdade infeliz.
Pacto com a solidão
As bibliotecas particulares, ao que parece, tendem a desaparecer. São cada vez mais raros, entre as novas gerações, aqueles seres antigos, esquisitos, com a estranha mania de ler e adorar livros, catando-os, ao longo da vida, em exaustivas pesquisas, na saudosa poeira dos sebos, no requinte das livrarias.
Não os vejo mais sentados em seus terraços ou nos bancos das praças - retratos, aliás, há muito tempo descolados dos álbuns de memória. Sabe-se de um ou outro que, desafiando intempéries naturais, ainda sobrevive em escritórios sombrios, mergulhados nesta espécie de “misantropia literária”.
Percebo agora, quando os fios brancos iniciam a conquista do que resta de cabelos pretos em minha cabeça, que os filhos de hoje não estão mais interessados nas bibliotecas árdua e pacientemente organizadas pela maioria dos pais que viveram, ontem, em casas desabitadas de livros.
E se não estão interessados nem mesmo nesta herança cujo tesouro são as palavras, e cujo único esforço, para possuí-lo, seria tão-somente o de gostar de ler e zelar pela saúde física dos volumes, como construirão seus próprios acervos? Talvez a tecnologia tenha melhores respostas para esta questão...
Leio nos jornais que uma nova invenção ameaça superar definitivamente o mais importante objeto de transmissão de conhecimento e perpetuação da cultura, ou seja, o livro. Trata-se, dizem os arautos, de uma espécie de tinta eletrônica capaz de formatar palavras automaticamente na tela de um livro-computador, ou vice-versa.
Vejo, então, numa curva da estrada do futuro, toda a Biblioteca de Alexandria reduzida a uma construção de poucos centímetros de vidro, plasma e fibras óticas. E, nos recônditos das casas que sobreviveram aos edifícios, pilhas esquecidas de coisas mofadas, úmidas de lágrimas antigas, verdes de vergonha pelo abandono de olhos e mãos.
Observo que os últimos guardiões do templo livre das palavras - vencidos pelo tédio ou pelo tempo - já abandonam seus postos. E não há troca de guarda. Os bastiões semânticos estão entregues agora às traças ou trapaceiros, aos reitores ou novos sátrapas do mercado livreiro. O prazer estético da leitura se dilui no colorido veloz das interfaces.
O homem que, por algum motivo, se desfaz de sua biblioteca é um homem que já começou a morrer. Paixões arrefecidas no peito, já não o satisfaz a última novidade na forma, o inusitado da mensagem nova.
Não lhe interessa mais saber de Dostoievski nas linhas do autor contemporâneo mais famoso...O processo começa lentamente. Primeiro, retira da prateleira "tudo aquilo que não é mais essencial", ato que uma desculpa sutil justifica: "A velhice encurta as bibliotecas... ficam os valores autênticos, as vaidades vão embora."
Depois, num falso altruísmo, caso não tenha ainda vendido ou trocado nada, doa-se quase tudo.Em seguida, o torpor. Uma espécie de niilismo alastra-se pelo cérebro tal qual um tumor maligno, embotando os sentidos e a consciência. O humor (e a verve célebre) também começa a desaparecer, dando lugar aos resmungos, ao alheamento. "Tudo muito chato... já não se escreve como antigamente.
"Os amigos - ou o que restou dos companheiros de memoráveis batalhas intelectuais, de intermináveis tertúlias, onde revoluções começavam e terminavam sem um único morto, sem um pingo de sangue - ou morreram, ou cansaram, ou padecem do mesmo mal.
Os elos desta sociedade - que nasceu do aço puro da estética - enferrujaram e se quebraram de maneira quase imperceptível.As novidades que chegam pelo correio dormitam durante dias sobre a escrivaninha ainda vestidas de papelão. Antes, eram abertas com sofreguidão, como se escondessem diamantes e não palavras.
Os livros que chegam como presentes são quase desprezados. “Com tanta coisa interessante por aí, só me trazem besteiras”... O melhor, para quem sente sintomas como esses, é seguir os passos do Coronel Aureliano Buendía, e fazer um pacto honrado com a solidão - para o velho revolucionário do romance de Gabo, o verdadeiro segredo da boa velhice. Caso contrário, corre-se o risco de se esperar a vida inteira pela passagem do próprio enterro...

Um comentário:
Pois eh meu amigo,isso eh verdade infelizmente tem gente que abandona mesmo,mas quando vc se formar tudo isso vai melhorar né?
=]
abraço do leitor +/-
Samuel
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