
Hoje não foi um bom dia pra mim. Não mesmo. Parece que tudo de errado deu pra acontecer de uma vez. Desejava esquecê-lo, mas qual!
Sabe aqueles momentos em que temos vontade de gritar a plenos pulmões?Pois é, eu estava com uma vontade enorme de gritar. Mas o que os vizinhos iriam pensar?No mínimo, achariam que estou louco.
Choro. As lágrimas caem mansamente sobre o travesseiro. Queria ser outra pessoa. Mas isso não dá!Meu corpo é uma prisão. Quem sabe se eu tentasse ser diferente. Deixaria de lado a timidez, sairia um pouco, de vez em quando, conheceria pessoas novas. Mas não, não. Prefiro a segurança do meu quarto. E ademais, provavelmente não faria amizade com ninguém numa festa, bar, ou qualquer outro lugar.
Não tenho amigos. Desejo isso tanto... E talvez saiba o porquê disso. Sou meio estranho, confesso. E sem graça também. Nunca contei uma piada na vida, não sei manter uma conversa com ninguém. Também, não entendo de quase nada. Futebol, política, livros: nem adianta tentar. Mas entendo de teias. Meu quarto está repleto delas. Há teias por toda parte, centenas delas. Não só em meu quarto, mas em toda minha casa. Às vezes, sinto que estou preso numa grande teia, como uma mosca. Contudo, isso não me apavora.
Como pude ser tão idiota?As pessoas estão sempre se aproveitando de mim. Sou ingênuo como uma criança. Hoje, outra vez fui ludibriado. Já estou acostumando-me a isso. Sempre que sou enganado por alguém, reprovo-me depois, mas sempre cometo os mesmos erros.
Mente cheia é inimiga do sono. E a minha estava a mil. Dava até pra imaginar meus neurônios, ligando-se e desligando-se freneticamente. Vi isso numa aula de biologia há um bom tempo. Eles funcionam associando idéias ou fatos a outros, nem sempre aparentemente conexos. Desculpe se falo bobagens. Nem sei se é assim mesmo. Mas quando começo a pensar, não paro. Posso divagar assim por horas a fio. Isso me faz distraído. Por vezes, no trabalho, alguém fala comigo e nem escuto, até que a pessoa insista. É como se meu corpo ali estivesse, mas minha mente voasse longe. E ela sempre chegava ao mesmo lugar. Em meu quarto, o único lugar em que me sinto tranqüilo. Conheço cada detalhe dele, cada uma das rachaduras nas paredes e das centenas de teias que o decoram. Quando há uma nova, com uma rápida passada de olhar, percebo-a.
Lembrei-me agora de um sonho que tive, meses atrás. Estava no trabalho, organizando alguns documentos. As pessoas vinham falar comigo, mas entre elas e eu havia uma enorme teia, nos separando. Elas falavam, mas não as ouvia. Eu gritava, mas não me escutavam. Eu saia então pelas ruas e me aproximava das pessoas. Tentava falar com elas, mas sempre a teia!
Nada de sono. E quanto prazer sinto em dormir. Quando durmo, esqueço de tudo. Como isso é bom!Se pudesse, dormiria sempre, hibernaria como um urso, e só acordaria para...
“Para quê?”
Nesse momento, o silêncio pareceu-me maior. Nem minha respiração ouvia. “Para quê?”, repetia.
Desesperei-me. Não encontrava resposta à minha indagação.
-Para quê?- gritei então, com todas as minhas forças. Um grito rouco, desesperado. Senti então uma inexplicável calma. Deitei-me, a olhar o teto.
O que aconteceu depois nem eu saberia dizer com precisão, se foi sonho, realidade, ou uma mistura dos dois. O certo é que percebi que as aranhas faziam teias ao meu redor. Sentia-me cada vez mais preso. Faziam também na porta, na janela, por todo o quarto. Parecia que queriam prender-me ali. Tentei mover-me e não consegui. Estava preso, realmente. Mas não era minha intenção fugir. Não tinha medo. Conformava-me.
Não sei se isso se passou em horas, dias. Perdi a noção do tempo.
Elas continuavam a tecer. O quarto já estava completamente tomado pelas teias. Só minha cabeça estava descoberta. Então bocejei. O sono estava chegando. Finalmente!
Esqueci das aflições do dia. Nem eram tantas assim. Eu sempre exagerando!Não valia a pena nem lembrá-las.
Escuto pessoas conversando e rindo, ao longe. Jovens farreando, provavelmente. Nunca fiz isso com amigos, com ninguém, aliás. Não importa. O sono agora me impede de pensar. Bendito sono. Dormirei agora. Quando acordar será um novo dia.







